outubro 28, 2004

Porquê?

Porque tem de haver dia e noite?
Porque temos de viver ou morrer?
Porque uma alma tem que ter outra metade que a complemente?
Porque não há estados intermédios para as coisas?

... Sim, é possível... A doença é um estado intermédio, e eu estou nesse patamar que nada é.
Estou doente.
Estou doente de alma.

Cansaço

Não sei porquê mas hoje sinto-me cansada... Sinto-me terrivelmente fatigada dos dias que por mim passam sempre vestidos da mesma cor.

Hoje estou mais pensativa do que o normal, mais perdida no meu habitual turbilhão de pensamentos, mais infiltrada no meu mundo sem nexo.

Vêm-me à cabeça imagens difusas que me lembram tempos que já esqueci, memórias doces que arquivei na minha caixinha dos segredos. Outras, que fiz por esquecer e que pensei que tinha perdido, mas que hoje me segredam que estavam apenas adormecidas.
Estou presa no rodopio da contradição dos meus pensamentos, dos meus medos, dos meus fantasmas, desejos e anseios...

Dou por mim a levantar-me constantemente, a procurar outros pensamentos que me ocupem e nada!

A minha cabeça embrenha-se na lógica e no raciocínio prático mas as lembranças corroem-me marcadas a fogo nos meus sentidos.

Tu... Sempre tu! O vazio que me deixas, a mágoa infernal do cinzento pálido que são os meus dias, o sorriso que desenhas no meu rosto com cada gesto de ternura, o desejo com que inflamas os meus sentidos ou a apatia que me corrói com o passar dos anos.
Hoje estou perdida, confusa, presa no limbo entre o vazio e a alegria. Penso quando não quero pensar, sinto e não quero sentir!

Porque não posso apenas existir? Respirar e esvaziar a minha alma de quaisquer sentimentos que me afundem na minha solidão interior? Não me apetece sequer ser, mas sou. Não me apetece ouvir-te, ver-te, ter-te na minha memória... Não me apetece esquecer-te, deixar a tua mão e perder-me de ti...
E não me apetece a indecisão!

outubro 21, 2004

Palavras sem nexo

Qualquer que seja a chama,
A ondulante cor reflactante e solitária dos sentidos,
Que aos susprios dança
Ócio meu que das sombras se esquece num suspiro

Qualquer que seja a luz
Essa fugidia que ao engando nos conduz
Brilho fugaz, engano, descaminho,
Que dos dias faz noites e das noites o espectro de uma chama fria

Qualquer que seja o caminho
A estrada, o trilho, destino.... (ou simples desatino?)
Fastidiosa recepção ao esquecimento,
Corrida contra o tempo nas horas vagas que invento,

Qualquer que seja a verdade,
Subjectividade da razão (ou projecto de insanidade?)
Linhas soltas, vagas e amorfas
Suspiros surdos, gritos mudos, ruídos absurdos

Solta-se a palavra sem nexo,
O desabafo e o desalinho do ser aprisonado
Nos dias, iguais, nas palavras, banais

Numa dança bruxuleante, pintura abstracta do vago.

outubro 20, 2004

Reflexo

Nas mãos velhas e cansadas, uma pétala dançava ondulante.
Com olhos de sapiência, luz que lhe alegra a face, sorriem na calma da noite num reflexo limpio de serenidade.
A lua cresce alta no cimo da montanha que se estende até ao horizonte. Nas águas claras paira uma sombra negra e solitária. Um raio de Luz parece iluminar uma face onde o tempo teima em deixar a sua marca que um dia se tornará fatal. O olhar claro, sereno, de onde desabrocha uma lágrima de prata cujo reflexo se quer incessante.
O vulto negro...A escuridão de um Ermita, a sabedoria da Eternidade...Na paz da Noite, onde todas as sombras são difusas, onde ao longe se ouve o cantar das aves nocturnas.
Uma lágrima, que ousa perturbar o silêncio da noite...
Olha à volta... Nada, a simplicidade do Nada, do Vazio preenchido apenas por vagas sombras que surgem no pensamento.
Passaram dias...Meses, talvez anos...O rosto agora reflexo nas cálidas águas do Lago, foi ceifado pelos traços de uma vida, da qual a memória é a única expressão.
E num qualquer refúgio da mente surge a sensação ofuscada, de uma solidão ilusória.
Ouvem-se os ruídos de sombras gravadas a fogo na memória...Tão reais que quase se conseguem tocar. Abre os olhos... É apenas o vazio da noite, esse companheiro incessante que a prende à realidade, que a desperta.
Olha o reflexo nas águas...
'' Quem és que já não reconheço a tua face...Esse olhar...singular, fugidio, familiar? ''
E num simples sussurrar:
''Sou a voz do vento que ouves ao amanhecer, o canto da cotovia que te desperta, o brilho do luar que te espreita, a solidão que sentes na alma, a face do tempo que passou, o olhar que não deixaste morrer...Sou o Infinito do teu pensamento guardado na eternidade da tua memória. Sou simplesmente o vazio coberto de todos os pequenos Nadas que fazem o Todo de uma vida. Sou a face do destino e da Morte que um dia te há-de ceifar...
Sou quem foste... Quem és... Sou aquela que um dia virás a ser...''

Fada

Existiu um dia, na Caverna da Vida,
Com cabelos de Lua, de prata inventada,
Olhos de nuvem de Inverno,
Pequenina...
Tão pequenina como uma Fada.
Tocou-me certo dia com uma lágrima,
Igual rio da Eternidade,
Tecendo uma suave despedida,
Gravada na tristeza do Eterno adormecer...
Subiu já aos Céus, tornou-se Estrela,
Aquele Ser de cabelos de Lua, de prata inventados,
Agora apenas aprisionada,
Na Alma daqueles que Nunca irão esquecer
Aquele Anjo pequenino,
...Tão pequenino...
Como uma Fada...

"Até um novo Acordar"

Delírios do Tempo...

Esconde-se o Tempo
Numa qualquer colina da Razão
Num breve sonho, pensamento
Numa verdade da Ilusão


Giram palavras que se escondem,
Dançam breves...
Solta-se o ser,
Solta-se a luz,
Solta-se a Vontade,
Num rodopio de Liberdade.

Cai uma Lágrima
Doce,
Quente,
Esquecida.

Perdida na asas do tempo,
Esse feiticeiro que nos rouba o pensamento!
E tudo passa por fim,
Sem garra e sem alento.

Criam-se peças ocas,
Breves,

Loucas...
Num qualquer palco sem multidões,

Onde a procura do Ser é insana,
Profana,
Insensata,
Vã...

Perdeu-se nas malhas do Tempo,
Esse poeta feiticeiro,
Que se esconde numa qualquer colina da razão...